segunda-feira, 21 de novembro de 2011

CRACK: A PEDRA DA MORTE SOCIAL.

A PEDRA DA VEZ

Texto: Mirella Brandão e Wanderlei Lucas
Fotos: Guilherme Ludwig, Mirella Brandão, Wanderlei Lucas







No meio do caminho tinha uma pedra. Assim disse nosso poeta, Carlos Drumond de Andrade. Mas ele não imaginava que de poeta, poderia ser classificado como profeta. A cada vez que uma pessoa utiliza o crack, uma droga feita a base de cocaína, a sociedade também adoece.
Vivendo à margem das leis e normas sociais, Tiago J.M, 26, conhecido como “Lorena”, sem trabalho, vive sem documentos, com um passado repleto de lacunas e um futuro incerto. Ele é uma das vítimas do crack.
Tiago não sai de casa desde 2010, com medo do que possam fazer a ele na rua. Segundo ele, quem sustenta seu vício são os dependentes que vão à casa dele: “Empresto meu espaço e eles me dão a pedra. Fumo com eles e fico de rocha (doidão)”, comenta.
NÚMEROS GARIMPADOS


A tragédia de Tiago é compartilhada hoje por milhares de mineiros. De acordo com a Secretaria de Estado de Defesa Social (SEDS), em 2009 e 2010 cresceu em mais de 20% o número de ocorrências policiais envolvendo o consumo e o tráfico da droga. Em 2009, a Polícia Militar registrou 3.391 boletins relacionados ao entorpecente. No ano passado, foram 4.073.
Diretora do Centro Mineiro de Toxicomania, Raquel Martins Pinheiro, constatou que só em 2011 houve um aumento de 43,9% em relação ao mesmo período no ano passado.
Dos 1.117 pacientes atendidos no Centro Mineiro de Toxicomania (CMT) no ano passado, 39,21% eram viciados em crack, que foi a droga que, individualmente, arrastou mais dependentes entre os atendidos na instituição. A diferença em relação a outras drogas ilícitas é alarmante: os usuários de cocaína representam 11,73%, enquanto os de maconha somam 9,76%.
Entre os dependentes de crack que se tratam no CMT, 391 são homens e 58, mulheres. A maioria (294) tem de 25 a 40 anos, primeiro grau incompleto (178) e é solteira (295). “O perfil do atendimento neste ano não muda muito. Do total, 40% são casos de recaída e 60% buscam ajuda pela primeira vez. O esforço do dependente é essencial, pois não há tratamento no mundo que tire a vontade de usar droga. A substância age na parte do cérebro que comanda o prazer. Se for usado um remédio para tirar o prazer da droga, ele vai anular todos os outros prazeres, como o de trabalhar e até mesmo o sexual”, explica a terapeuta ocupacional Raquel Martins Pinheiro, especialista em toxicologia e diretora do CMT. “Nesse período em que o crack está nos principais noticiários e que muitas pessoas falam que o viciado em crack não tem solução, o desestímulo com relação aos dependentes que querem se tratar aumenta. Porém, eles precisam buscar ajuda”, alerta Raquel.
Segundo a diretora do o Centro Mineiro de Toxicomania - instituição pertencente à Federação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) - foi o primeiro serviço público do Brasil criado em 1977 para atender o paciente de drogas. O dependente é acompanhado em hospitais por um clínico ou internado em instituições privadas. Ainda conforme Raquel, desde 2002, o CMT é credenciado como Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), em consonância com a Política Nacional do Ministério da Saúde.
O CMT possui capacidade para receber cerca de 12 novos casos de dependentes por dia. Na primeira entrevista do acolhimento são avaliados: a intensidade da relação estabelecida entre o sujeito e a droga/álcool; os comprometimentos psíquicos e orgânicos, e os danos sociais envolvidos, tais como o rompimento com os laços familiares, trabalho e escola. Após a avaliação do acolhimento, os pacientes poderão ser encaminhados, de acordo com cada caso, para os diferentes dispositivos institucionais, ou se necessário, para outras instituições. O ambulatório funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19horas na Alameda Ezequiel Dias, nº 365, bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Telefone de contato: 31-3217-9000.


DE FRENTE À REALIDADE


Voltando ao Tiago, mudou-se com a família de Nova Lima para Belo Horizonte quando ele tinha sete anos.
As drogas foram uma forma de encoraja-lo a assumir a encarar seus desejos mais secretos. Assim, aos 15 começou a fumar maconha; e, aos 17, o crack. “Até a fase da maconha, eu estava bem. Fumava porque não tinha coragem de assumir que era gay”, lembra.
As marcas deixadas pelo crack estão visíveis de Tiago. Ele já foi baleado seis vezes desde que se rendeu a tragédia que droga impõe à vida de um usuário. A primeira vez foi em uma briga com o namorado. Depois disso, ele nunca mais largou o crack e começou a roubar e a se prostituir para sustentar o vício.“Eu sentia mal, sem moral com ninguém”. Fui expulso de casa e acabei indo morar na casa de uma amiga, mas ela também era dependente. Em 2009 ele se sentia desesperado, a ponto de se esconder embaixo da cama e gritar por socorro durante as alucinações que o crack causa. “Tomei um tiro no rosto, fui detido e esse foi o pior momento da minha vida, que foi perder a liberdade”, contou.
Após um ano de detenção, conseguiu liberdade provisória, ficando de dia na rua e dormindo no presídio. Nessa época, diretamente ligado ao tráfico, ele levava drogas a outros detentos: “Hoje os presídios estão cheios por causa do crack, e não do álcool, da maconha e da cocaína”, comenta.
Nem os ferimentos, nem as ameaças e nem a prisão, nada disso incute em Tiago a vontade de se afastar do crack. “O crack mata sim, mas por causa das reações, das loucuras que ele provoca. A pessoa pode se jogar de um prédio, ser baleado em alguma rixa ou acerto de contas... mas ele (o crack), como substância, só mata se for muito ingerido”, explicou.
Hoje, Tiago mora com a mãe. “Minha mãe ainda se desfaz muito de mim, mas eu não dou escolhas a ela. Ainda pego dinheiro na bolsa dela quando ela dorme... mas, depois, eu pago”, afirmou.
Apesar os conflitos com a mãe, Tiago não esconde que seu maior medo é perdê-la. “No dia em que isso acontecer, tenho certeza de que vou virar um mendigo”, disse.
Segundo Tiago, a internação compulsória está fora de cogitação para ele: “não irei de jeito nenhum, porque tenho supercontrole. Se hoje fico estressado é por causa de alguma crise de abstinência. Até humilho as pessoas”.
PEDRA DA MORTE É CAMPEÃ EM DEPENDÊNCIA

O crack é obtido a partir da mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada (feita com folhas da planta Erythroxylum coca), com bicarbonato de sódio e água. Quando aquecido a mais de 100ºC, o composto passa por um processo de decantação, em que as substâncias líquidas e sólidas são separadas. O resfriamento da porção sólida gera a pedra de crack, que concentra os princípios ativos da cocaína.
Segundo o químico e perito criminal da Polícia Federal (PF) Eduardo Mendes Cardoso o nome ‘crack’ vem do ruído que as pedras fazem ao serem queimadas durante o uso.
Existe diferença também no nível de pureza do crack, já que ele é produzido de maneira clandestina e sem qualquer tipo de controle. “A pureza vai depender do valor pago na matéria-prima pelo produtor. Se a cocaína for cara, é misturada com outras substâncias, para render mais. Se for de uma qualidade inferior, pouca coisa ou nada é adicionada”, diz Cardoso.

ESFUMAÇANDO O ORGANISMO


O crack geralmente é fumado com cachimbos improvisados, feitos de latas de alumínio e tubos de PVC (policloreto de vinila), que permitem a aspiração de grande quantidade de fumaça. A pedra, geralmente com menos de 1 grama, também pode ser quebrada em pequenos pedaços e misturada a cigarros de tabaco ou maconha – o chamado mesclado, pitico ou basuco. “Ao esquentar a pedra, ela se derrete e vira gás, que depois de inalado é absorvido pelos alvéolos pulmonares e chega rapidamente à corrente sanguínea”, conta Cardoso. Enquanto a cocaína em pó leva cerca 15 minutos para chegar ao cérebro e fazer efeito depois de aspirada, a chegada do crack ao sistema nervoso central é quase imediata: de 8 a 15 segundos, em média. A forma em que se administra a droga no organismo é o que se chamade fissura. Todas as drogas estimulantes que são ingeridas no organismo causam o rebote, ou seja, o organismo cobra por ter sido super-estimulado e em seguida o organismo do usuário entra em um processo de repouso.
Cardoso alerta: “É possível sim que o crack mate por efeitos vasculares. A droga possui um efeito deletério no organismo, mas as mortes são psicossociais, pois afeta o lado social, psicológico e físico. O usuário sob efeito das substancias tomam atitudes que geralmente, sem a droga, não teriam coragem de tomar. O usuário do crack é imprevisível.
De acordo com o perito Cardoso, o setor técnico científico da Polícia Federal atua em seis áreas, divididas em sete grupos, que vão desde a perícia médica à informática. A área de Química Forense, onde ele atua, éo “carro chefe” dos trabalhos realizados pela PF. Eles combatem desde crimes de colarinho branco (um crime cometido por uma pessoa respeitável, e de alta posição (status) social, no exercício de suas ocupações) à apreensão e análise de drogas. Depois que o departamento químico forense da polícia analisa o produto, é emitido um laudo para evidência material, que é utilizado durante os processos criminais.
Segundo ele, o Oxi não existe: “ É um mito dentro da imprensa. O processo de refino da cocaína é bem simples. É feita a extração de alcalóides da planta, onde são utilizados querosene, gasolina e cal e a imprensa começou a divulgar que havia uma forma oxidada da cocaína. Há uma série de incongruências entre o que se lê e o que se sabe. Este ano foi feito um estudo em Brasília com a colaboração do Acre, onde comparamos as substâncias com a Polícia Civil. Dizia-se que poderia ser uma modificação (adultério) no produto final, mas após a análise quimica detalhada, concluimos que as amostras quimicas são idênticas. Então, não existe uma nova droga no mercado.”, conclui.
Atuando como perito há doze anos, Eduardo Mendes Cardoso é Eng. Químico e Perito Criminal Federal. Ele comenta sobre o consumo de drogas: “O ser humano faz uso de drogas há tres mil anos antes de Cristo. O áqlcool, por exemplo, é proibido no Oriente Médio e na Ásia, mas o ópio é permitido lá. Na Jamaica, a maconha é permitida porque é cultural. Ela (a maconha) não é liberada, mas é aceita. Na Holanda ela é descriminalizada, assim como nos EUA e no Canadá. As drogas são usadas em diferentes culturas com diferentes objetivos. Algumas despertam o efeito de cessação do eu e a crença no divino, como o santo daime e a maconha, por exemplo. Existe uma corrente de biólogos que diz que determinadas plantas já são preparadas naturalmente com substâncias para causar alguns efeitos no organismo de quem as consome. É uma forma que as plantas acharam para conseguirem se propagar ou se proteger. A diferença entre consumo cultural milenar dos entorpecentes é o abuso. Hoje pode ser inglório lutar contra a cocaína, a maconha ou o crack. Devemos é tentar controlar.”

ADMISSÃO NO GARIMPO

Há quem diga que o dependente de crack não tem escolha. Alguns discordam e falam que a entrada nessa vida é uma decisão tomada exclusivamente pela pessoa. Mas independente das motivações que levam ou não um cidadão comum se tornar um viciado nessa droga, o importante é que existe um caminho para a saída.
Se por um lado muitos duvidem da possibilidade de recuperação, os exemplos de superação existem.
Nascido em Sergipe, Mateus de Araújo Mendes, 25 anos, foi adotado pela família Araújo Mendes quando tinha apenas 15 dias de vida. Aos quatro anos de idade foi para São Luís (MA), onde os pais trabalhavam para uma editora de revistas. Viveu lá até os 12 anos. Os pais tinham condição financeira acima da média. Aos 13 anos, foi morar em Lagoa da Prata, centro-oeste de Minas Gerais, e continuou estudando.
A curiosidade, os amigos e a boa condição financeira o levaram a experimentar maconha, isso ainda aos 13 anos. “Eu já tinha tudo e queria uma coisa diferente”, diz.
Mateus estudava em um colégio particular e foi aí que as sequelas da droga começaram a aparecer. Foi reprovado pela primeira vez.
Muito abalado, chegou à sua casa e deu a notícia aos pais, que, na tentativa de consolá-lo, o presentearam com uma moto, acreditando que isso o incentivaria a estudar. O efeito foi contrário. Mateus pensou: “Estou fazendo tudo errado e meus pais ainda me dão presente. Acho que estou no caminho certo”.
Continuou a usar maconha, ir para baladas de moto. Chegava tarde à sua casa, não queria dar satisfação aos pais. Aos 14 anos, só era bom em redação na escola. “Eu ia fumando para escola, estudava pela manhã. Comprava a maconha com a minha mesada. Não trabalhava, não fazia nada, mas meus pais me davam dinheiro. Sempre foi muito fácil comprar drogas aqui em Lagoa. A cidade é pequena”, comenta.
Indo às baladas de moto, experimentou cocaína, sem deixar de usar também a maconha. A maconha era utilizada pela manhã, diariamente, e a cocaína aos fins de semana. Foi reprovado pela segunda vez aos 15 anos na 7ª série. “Foi nessa época que meus pais começaram a ouvir as afirmações de que eu estava usando drogas. Isso ficou evidenciado nas minhas agressividades. Eu sempre tinha sido um artista, conseguido enganar todos, mas a cocaína me deixou descontrolado”, admite.
Apesar de tudo, a mãe lhe deu um carro, o que facilitou ainda mais sua relação com as drogas. “Ia com a turma buscar drogas em lugares distantes, passava dias fora de casa”. Nessa época, Mateus conheceu um homem que o apresentou o crack. “Fizemos uma parceria, tipo líderes de gangue. Aprendi muitas coisas erradas com ele, os caminhos do tráfico. Buscávamos a droga juntos”, disse.
Os amigos fumavam maconha com crack. “Alugamos uma casa e eu fumei 28 pedras de crack. Na época, emagreci 15 quilos em poucos dias”, relata. Aos 16 anos, desistiu do colégio e arrumou uma namorada. “Tirei a moça da igreja e ela começou a usar drogas comigo”, disse.
Mas o namoro com as drogas começou a perder a graça depois de ele ter sido traído pelo comparsa, aos 16 anos, quando ambos foram à Pedreira Prado Lopes – conhecida como a cracolândia de Belo Horizonte- comprar drogas e a primeira arma, uma pistola 765. “Fui traído e roubado por ele. Nessa época, ele já o cara mais procurado da cidade. Fiquei muito irritado, o ameacei de morte e o delatei na delegacia. Logo depois, fui para Aracaju com minha família e minha namorada. Ele foi preso, mas por pouco tempo”, lembra.
Quando voltou para Minas, depois de sua avó ter sido atropelada, Mateus se encontrou com o comparsa que o ameaçou. “Quando nos encontramos, ele reclamou comigo por ter ficado preso, brigamos e fui espancado”.
Quando ele acordou percebeu que havia sido espancado. “Voltei para Aracaju, me recuperei, mas só pensava em vingança. Fiz artes marciais e queria voltar para me vingar”, conta.

PEDIDO DE DEMISSÃO DO GARIMPO

Foi no sufoco que Mateus buscou ajuda religiosa. Ele começou a trabalhar na delegacia, onde ficou por um ano (levaram oito meses para confiar nele). “Perdoar alguém é um milagre, é preciso ser tocado na alma”.
Em um momento de desespero, ele pensou no que fazer e resolveu ir à igreja a convite de um amigo: “Vi que Deus tinha algo melhor para mim. Eu me converti e fiquei espiritualmente preparado. Mudei de vida completamente”, afirmou.
O jovem passou a trabalhar com a recuperação de drogados. “Trabalho em outra empresa há um ano e meio, namoro uma moça que também frequenta a igreja evangélica. Ajudo a minha família e vivo uma vida completamente diferente, ou melhor, passei a viver”, comemora.
POLIMENTO
Texto: Guilherme Ludwig
No dia 23 de setembro foi publicado no Diário Oficial do Estado um decreto sobre a criação de um auxílio financeiro para os dependentes químicos. Batizado de “Cartão Aliança pela Vida”, o benefício consiste numa ajuda mensal de R$900 para famílias cuja renda familiar mensal seja de até dois salários mínimos, a custear o tratamento de parentes com problemas de dependência química.
O lançamento oficial do benefício foi realizado na Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves no dia 05 de outubro. O governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia, enfatizou a importância do projeto no combate às drogas, um problema cada vez maior no estado mineiro. “Ficamos muito satisfeitos com esse programa que é pioneiro no Brasil. Temos que estreitar os nossos esforços para que, de fato, tenhamos condição de reverter essa grande mazela da nossa sociedade moderna”, afirmou em seu discurso.
A princípio, o Cartão Aliança pela Vida atenderá cerca de mil famílias dos municípios de Teófilo Otoni, Vale do Mucuri, e Juiz de Fora, Zona da Mata. Para ter acesso ao cartão, a família beneficiária deverá passar por uma série de etapas, a fim de apurar a real necessidade do auxílio, evitando fraldes.
Os familiares deverão apresentar relatório de médico psiquiatra do sistema público de saúde que ateste a dependência química e recomende a internação como medida de tratamento adequada. As condições socioeconômicas da família serão avaliadas pela prefeitura local, que será responsável pela emissão do relatório recomendando ou não a inclusão no programa. O benefício tem duração de nove meses, período médio que dura uma internação, mas pode ser prorrogado por até dois anos.
A distribuição do cartão é parte do programa Aliança pela Vida, criado em agosto deste ano pelo governo de Minas. O objetivo do programa é combater os problemas relacionados à dependência química, sobretudo do crack, que vem ganhando atenção especial nos últimos anos por seu alto poder destrutivo.

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